Campinas é conhecida nacionalmente pelo polo tecnológico, pelas universidades e pela rodovia dos empresários de software. A poucos quilômetros dali, porém, distritos como o de Souzas, Jardim do Lago e áreas industriais de Sumaré abrigam metalúrgicas, ferramentarias e empresas de embalagem que empregam moradores da região há décadas — muitas ainda com o nome da família fundadora na entrada.
Esses dois mundos compartilham o mesmo município e a mesma malha viária, mas operam em velocidades econômicas diferentes. O Kaliva Brasil passou uma semana ouvindo gestores dos dois lados para entender como a cidade inteira sente — ou deixa de sentir — as mudanças que chegam primeiro à Faria Lima.
O corredor da inovação
No entorno da Unicamp e ao longo da Rodovia Dom Pedro, empresas de base tecnológica relatam ambiente de captação de recursos mais seletivo do que em 2024, mas ainda favorável para negócios com receita recorrente. Startups de software industrial e healthtech mantiveram contratações, embora em ritmo menor. O salário médio nessas firmas puxa talentos que, há dez anos, iriam direto para indústrias tradicionais.
“Perdemos dois projetistas experientes para uma empresa de automação no Techno Park”, conta o dono de uma ferramentaria em Sumaré com 45 anos de história. “Não é falta de trabalho. É falta de gente que aceite o que pagamos.”
Metalúrgicas de bairro: o chão da economia
As indústrias familiares de Campinas e cidades satélites — Hortolândia, Americana, Nova Odessa — formam a base da cadeia produtiva regional. Fornecem peças usinadas, estampados, tratamentos superficiais e componentes para montadoras, eletroeletrônicos e agronegócio. O volume de produção no primeiro trimestre de 2026 ficou estável em relação ao ano anterior, segundo relatos convergentes de cinco empresas consultadas.
Campinas tem dois termômetros: o do investimento em tecnologia e o do turno da fábrica às seis da manhã.
A margem, porém, sofreu. Matéria-prima importada ficou mais cara com o câmbio; fornecedores nacionais repassaram reajustes com menor prazo de aviso. Alguns gestores adiaram a compra de máquinas novas e estenderam a vida útil de equipamentos com manutenção preventiva mais frequente.
Sumaré e a indústria automotiva
Sumaré concentra fornecedores diretos e indiretos da cadeia automotiva. A produção de veículos no Brasil influencia o ritmo dessas fábricas de forma imediata — mais do que qualquer indicador macro distante. Em maio, a expectativa de corte de turno em uma montadora vizinha gerou onda de cautela entre empresas de primeiro e segundo nível.
“Quando a montadora espirra, a gente já sente no dia seguinte”, resume uma administradora de uma empresa de estamparia familiar. O setor não entrou em crise aberta, mas várias firmas reduziram estoque de matéria-prima e negociaram prazos de pagamento mais longos com clientes de confiança.
Convivência, não concorrência
Apesar das diferenças, há pontes. Indústrias tradicionais contratam software de gestão produzido localmente; startups de logística atendem distribuidoras de bairro; universidades oferecem cursos técnicos que alimentam ambos os lados. O desafio municipal é garantir que o crescimento do polo tecnológico não esvazie a base produtiva que sustenta empregos formais fora do centro expandido.
Para quem observa a economia regional, Campinas funciona como laboratório: mostra como uma cidade média brasileira pode prosperar em duas frentes — e também como essas frentes podem competir pelos mesmos recursos humanos e financeiros.